A minha volta deve-se ao texto abaixo, extraído de um dos meus
blogs favoritos. Espero que a autora não se sinta invadida em sua privacidade e entenda que as suas palavras me fizeram chorar por dias e conduziram o meu reposicionamento emocional. É um texto enorme, na verdade uma carta para ninguém ... ninguém que a possa ler, não mais ...
"Sonhei que a neve ferviaSó meu compromisso com sua mãe, de entregar nas mãos dela as suas cinzas, coisa que eu levo mais a sério nesse mundo, me deu coragem para vir. Porque eu queria mesmo era ficar em casa e passar o Natal quieta e só. A Maloca foi me buscar em casa e eu tremia de pavor. Aliás, no começo da tarde, quando o Leo me buscou para tomar café-de-despedida, eu já estava tremendo. Daí a Maloca me levou para o aeroporto. Durante nossa ida para lá, na Avenida Tiradentes, dois pivetes travados de crack se dependuraram na janela dela e um deles encostou uma seginga no braço dela. Eles berravam muito e diziam “a frentinha! a frentinha!”. Mas a debilóide aqui não entendeu a palavra ‘frentinha’ (que é aquela parte removível do som do carro). Eu entendia “fitinha”. Daí olhava abobada para a fitinha de Nosso Senhor do Bonfim que Maloca tem pendurada no retrovisor e pensava um Deus, para que eles querem isso? Daí, sempre brilhante, pensei “Ah, a fitinha, acho que ele quer o CD que está tocando!” E tirei o CD do aparelho de som. Daí a Maloca, essa santa, foi quem teve que tirar a tal da frentinha do lugar e entregar a eles. Fomos quase mudas até o aeroporto. Em vez de me deixar no desembarque, a Marlene ficou comigo no check in, na fila de despachar a bagagem, tudo. Não pode existir gesto mais doce que esse. Então chegou a hora da Maloca ir embora. E eu fiquei naquela lanchonete que tomamos café ano passado, antes de irmos para a casa de sua mãe, ao lado da loja onde você comprou o gatinho de cerâmica para mim. Pedi uma água e fiquei ali lendo meu livro do Goya e ouvindo Sobrinhos do Ataíde. Na hora certa fui para o portão de embarque. E quando tive que passar pela maquininha de raios-X, surpresa, surpresa. A segurança do aeroporto implicou com a urna que contem suas cinzas. Claro. Depois do crematório, da TAM e da administração do Aeroporto de Cumbica terem me dito várias vezes que não haveria problema e que eu só precisaria de autorização especial da Polícia Federal se fosse sair do país com você, eis que os bravos rapazes da segurança resolveram revirar minhas bolsas e papéis. Com seu pequeno poder e seu vastíssimo conhecimento legal, a turma me segurou lá junto à bendita maquininha uns 20 minutos. Eu e essa minha cara de perigosa traficante, só pode ser isso. Enfim liberada, o embarque foi rapidíssimo. Na janelinha e sem ninguém ao meu lado (tenho certeza que a doce Mani tem participação nisso), prendi meu cinto de segurança e reparei no seguinte: eu havia parado de tremer assim que entrei no avião. Fim. Eu não estava com medo. E percebi que foi a mesma coisa que senti quando os meninos encostaram a seringa na Marlene. Eu só tive medo de que eles fizessem mal a ela, mas o Medo, aquele, não estava lá. E então eu soube: meu maior temor nessa vida era que você morresse. Era meu pavor, era meu pesadelo, era o que me fazia chorar quando encostava meu rosto no seu (o outro motivo que me fazia chorar encostada em você era amor, eu amava tanto você que doía, era física essa dor e eu chorava, lembra?). E sem esse medo nenhum outro medo faz sentido, porque nada pode ser pior do que ter o maior medo realizado. Parei de tremer assim que entrei no avião, meu medo passou. Esse e os outros. Você morreu, o pior aconteceu e eu não devo temer mais nada. Não sei se isso é bom ou ruim e não sei se é saudável e não sei se isso me faz ser uma pessoa pior ainda do que eu já sou, mas o fato é que tivemos chuva e turbulência e avião sacudindo e portas dos compartimentos de bagagem se abrindo e gente dando gritinhos e crianças grandes chorando e eu não temi. Não temi as pessoas que falavam comigo, não temi suas vozes, a presença delas, a existência delas. Não tive medo de explosões e nem de quedas. Ouvi as piadas dos Sobrinhos do Ataíde várias vezes, ouvi todas as músicas que o Leo me deu, ouvi todas as músicas que gravei, li meu Goya e não temi nada e nem por nada, nenhuma vez. No aeroporto de Recife estava Nanne. Tão doce e tão linda e tão pequenininha. Parecendo uma fadinha. Ela me levou para um hotel aquela coisinha doce, quis me poupar do que ela chamou de “confusão” da casa dela, imagine. Cochilei um pouquinho depois do banho (por que é que banho em hotel é sempre melhor que na casa da gente?) e depois de ver House com ela, saquei que terei que dividir o amor do Doutor Gregory House com Nanne, ela também é apaixonada por ele, mas eu estou conformada. De manhã Nanne me levou para conhecer a casa dela e Breno, quase três anos. Ele tem cabelinhos cacheados (O que é que há de tão atraente em meninos pequenos de cabelos cacheados? Homens adultos eu prefiro com cabelos bem, bem curtos – adorava os seus, você passava tacava a máquina um na cabeça e eu gostava de passar as mãos nos seus cabelos e dizer que você tinha cabelo de ursinho. Mas há algo de comovente num menininho de cabeça de carneirinho). Nanne é absolutamente louca pelo neto e eu também fiquei. Ficamos amigos imediatamente, arrancamos a cabeça do Homem Aranha inúmeras vezes, sem pena e desenhamos peixinhos, ele me explicou uma complicadíssima trama sobre um carro que o Homem Aranha usa para voar em cima do prédio da “fofóóóóóó Nanne” e já era hora de ir embora. Do elevador eu podia ouvir os gritinhos dele “Bibi, volta quiiiiiiii!!” e depois que Nanne me disse que não é de todo mundo que Breno gosta, eu me senti ainda mais lisonjeada. Nanne me levou para a produtora onde trabalha, e eu fiquei ali, no escritório que ela divide com mais umas seis moças, incluindo a filha dela que também trabalha lá. As conversas todas eram sobre câmeras e um diretor que vai chegar dalgum lugar e objetos de cena e aluguel de equipamento e tipos de lente e locações e orçamentos e a sala de espera fervia de gente esperando algum casting que devia envolver crianças (eram várias e todas sem educação nenhuma) e a Nanne parecia uma louca resolvendo tudo e falando em dois telefones ao mesmo tempo e eu senti tanta falta de trabalhar com isso, tantas saudades, those were the times. A única coisa que faltava ai era o Rui berrando feito um demente, o dono da produtora da Nanne grita pouco eu acho, todas as vezes que eu o vi (foram só duas) ele falava baixinho e beijocava todo mundo. Deus, não existe nada mais estimulante do que a adrenalina de trabalhar numa boa produtora de comerciais, os prazos, as exigências, a confa, é bom demais. Elas pediram almoço, comida nordestina, em minha homenagem e eu comi galinha à cabidela pensando em você. Babei aquele molho escuro na blusa, que dúvida, eu não sirvo para viver em sociedade. Mal troquei a roupa e o motorista que sua mãe havia arranjado para me buscar chegou, malas no carro, abraços enormes em Nanne, na filha dela, Priscilla (a mãe de Breno – e o menino é a cara da mãe), uma menina doce, engraçada e linda e nas outras moças simpáticas e segui com o destemido Bira (mesmo nome do juiz que nos casou), que tinha que buscar mais passageiros, mais encomendas, a vida de Bira é agitadíssima. E quando finalmente caímos na estrada, vi o que eu realmente estava fazendo ali. Eu estava procurando você. Eu lhe procurei, querido, pela estrada recém-duplicada (para orgulho e alegria de Bira). Chamei seu nome em silêncio enquanto passava por Insurreição, Pombos, Bezerros, Nova Jerusalém, Bom Conselho, Agrestina, Sairé, Bonito, São Joaquim, São Caetano. Gritei muda por você enquanto subia a Serra das Russas, enquanto me enfiava no Túnel Cascavel (outra construção que fala ao coração de Bira), e quando cruzei as pontes sobre os Rios Ipojuca e Gravatá e a ponte sobre o Riacho do Mel. Esperei ver você paradinho, com sua cara de menino ao lado da placa de Gravatá, ou de Belas Águas ou de Cachoeirinha ou de Chá Grande. Depois achei que você pudesse surgir no posto de gasolina onde paramos, vindo de algum lugar como Brejão, Terezinha, Saloá, Paranatama, Jucati, Gravatá, Limoeiro, Surubim, Vitória do Santo Antão, São Bento do Una, Capoeiras ou Calçado. Procurei seu cabelinho preto e branco na entrada da Chácara Suíça e do Rei das Coxinhas. Tentei ver seu rosto nas indicações da estrada que levariam a Toritama, Sapucarana, Encruzilhada de São João, Caruaru, Arcoverde, Pesqueira, Lajedo, Quipapá, Panelas, Jucati, Cupira, Caetés, Palmeirinha, Correntes, Canhotinho, Belo Jardim e quis ver você em um barquinho no Rio Alecrim. Mas você não estava em lugar nenhum. E quando eu comecei a me desesperar por não encontrar você, Bira me ensinou, ainda da estrada, a identificar a casa de sua mãe graças a três pinheiros enfileiradinhos que eu podia ver lá longe no horizonte. Então fixei meu olhar neles, porque me ocorreu que talvez fosse lá que você estivesse, adorando os jogos malucos de computador de Davi e Juliano, amando os cafés da manhã de Madalena, com queijo de coalho e banana cozida, emocionado por dormir na cama tão linda da casa de sua mãe, com lençóis que cheiram como lençóis de nenhum outro lugar do mundo. Achei que talvez fosse aqui que você estava esse tempo todo, tendo altas discussões filosóficas regadas a café com o Camarada Paulo, fotografando as plantas de sua mãe, vendo o Jornal Nacional com seu pai, brincando no piano que sobreviveu ao seu incêndio (você colocou fogo no outro, gerando a mais mal contada história de todos os tempos) e escolhendo qual pão doce você iria comprar para mim. Quanto mais os pinheiros se aproximavam, mais cheia de esperança eu ficava, querido, e quando o carro de Bira entrou no terreno da casa eu desci a toda e corri para os seus pais. Mas então vi o rosto de sua mãe e entendi que você não estava ali. E que, de muitas formas, ela também esperava que você tivesse vindo comigo, que eu tivesse o poder de trazer você de volta para ela. Mas eu não tive, eu não tenho. E aí eu deitei minha cabeça sobre o casaco de lã verde que envolvia sua mãe e chorei e entendi. "